Antes de entrar nos pormenores, uma palavra para quem vai pela primeira vez: o que se segue é a história que a Disney imaginou para a atração, a sua narrativa temática, e depois a história da sua conceção e dos seus bastidores. Para enquadrar tudo isto na história geral do parque, vê a história da Disneyland Paris. Para toda a parte prática (onde fica, duração, acessibilidade), remeto-te para a ficha Pirates of the Caribbean. Aqui, eu conto a história.
Qual é a história de Pirates of the Caribbean na Disneyland Paris?
A história assenta numa ideia forte: em Paris, vives tudo ao contrário. Enquanto os outros parques Disney começam pelas cavernas e pelos restos dos piratas para depois recuar no tempo, a Disneyland Paris inverteu tudo. O percurso parte do caos em movimento, o ataque a um forte espanhol, para chegar ao seu desfecho fúnebre, a maldição.
O cenário dá logo o tom: a atração fica num edifício de Adventureland inspirado numa mansão elegante de Nova Orleães, com fachada de estilo colonial espanhol (a zona Caribbean Plaza).
Embarcas num barco numa lagoa noturna. Está tudo calmo, quase adormecido. E de repente a história acelera: o barco sobe por uma rampa e, lá em cima, surpresa, passaste para o passado. A batalha já começou.
Em Paris, o sentido da visita é a narrativa. Cada queda de água (há duas) serve de ponto de viragem na história. É isso que faz dela a versão mais narrativa de todas as Pirates da Disney e, na minha opinião, a mais sombria.
Quem gosta de montanhas-russas sabe que a subida com que começa este tipo de atração é um elemento de suspense. Nesse momento em que se sobe, não se vê grande coisa, mas sabe-se que em breve se vai dominar tudo e viver algo extraordinário. Daí a importância de pôr esta rampa logo no início da aventura.
A narrativa, ato a ato
Ato 1: a calma antes da tempestade
Embarcas de noite numa lagoa. Os barcos passam junto às mesas de um restaurante à beira da água, cruzam um navio naufragado e aproximam-se de uma enseada escondida aos pés de uma velha fortaleza. Ainda nada rebentou.
Ato 2: a viagem no tempo
O barco sobe pela rampa do forte. Lá em cima, recuaste no tempo: chamas, sombras de piratas e de soldados a combater. Passaste para o passado.
Ato 3: o assalto ao forte
Atravessas a prisão inundada, onde piratas presos tentam convencer um cão que segura as chaves na boca. Depois, uma primeira queda de água atira-te para o meio de uma batalha de canhões: o galeão pirata, o Wicked Wench, e os soldados do forte espanhol disparam uns contra os outros.
Ato 4: o saque da cidade
A cidade foi tomada. O capitão pirata interroga Carlos, o presidente da câmara, amarrado a uma cadeira e mergulhado num poço ("Fala, canalha! Onde está o tesouro?"), enquanto um pirata músico troça dele com a flauta. Mais à frente, um aldeão e uma mulher pirata cruzam espadas. Depois, a cidade arde, e uma segunda queda leva-te no momento em que o arsenal explode.
Ato 5: a maldição
Chegas ao presente, à gruta do tesouro. O saque continua lá, mas os seus guardiões já não passam de esqueletos. A ganância acabou com todos. Uma caveira falante pronuncia a sentença final.
O que quer dizer "Dead men tell no tales"?
Mesmo no fim do percurso, uma caveira falante dirige-se a ti. Lança os seus avisos e repete a frase que resume tudo: "Dead men tell no tales", literalmente "os mortos não contam histórias", ou mais simplesmente "os mortos não falam".
É a moral da narrativa. Os piratas saquearam, incendiaram e mataram por um tesouro e morreram por causa dele. Não há ninguém para aproveitar o saque nem sequer para contar o que aconteceu: só restam ossos. Em Paris, a caveira aproveita também para te pedir que fiques sentado até os barcos pararem por completo.
A atração nasceu antes ou depois dos filmes?
É o ponto que mais surpreende os visitantes: a atração nasceu antes dos filmes. A primeiríssima versão, no Disneyland da Califórnia, abre em 1967. É a última atração cuja conceção Walt Disney acompanhou pessoalmente: na sua última visita aos estúdios, em novembro de 1966, pouco antes de morrer, pôde ver a cena do leilão totalmente animada, embora a atração só abrisse em março de 1967.
O primeiro filme, Piratas das Caraíbas, só estreia em 2003 e inspira-se na atração, e não o contrário.
Na Disneyland Paris, a Pirates of the Caribbean abriu portanto a 12 de abril de 1992 sem nenhuma personagem dos filmes. Só em 2017, numa grande renovação, a Disney fez o caminho inverso e juntou a saga ao cenário original. A atração inspirou os filmes, que por sua vez alimentaram a sua renovação.
Como foi imaginada a atração?
Os piratas fascinaram Walt Disney durante toda a carreira: logo em 1927, uma das suas curtas-metragens da série Alice Comedies já mostrava um mundo de piratas. Já a ideia de uma atração remonta a 1957.
Antes mesmo de o Disneyland da Califórnia estar concluído, Walt pensava alargá-lo com um bairro chamado New Orleans Square, que devia ter uma zona comercial, uma casa assombrada e um museu de cera dedicado à história da pirataria.
O projeto é suspenso em 1962: Walt Disney mobiliza as suas equipas para a Exposição Mundial de Nova Iorque de 1964. Este desvio muda tudo. Os Imagineers (a equipa de conceção dos parques, reunida sob o nome Walt Disney Imagineering) criam aí novos meios de transporte, os barcos sobre carris de it’s a small world, e fazem avançar a tecnologia Audio-Animatronics com uma figura falante de Abraham Lincoln.
Graças a estes avanços, o projeto Pirates abandona a ideia de um percurso a pé e passa a ser um cruzeiro de barco, cheio de efeitos especiais. O museu de cera tornou-se uma atração viva.
Um fascínio antigo
Logo em 1927, uma curta-metragem de Walt Disney (a série Alice Comedies) já mostra um mundo de piratas.
A primeira ideia
Walt Disney imagina um bairro New Orleans Square, com um museu de cera dedicado à história da pirataria.
A viragem da Exposição de Nova Iorque
Ao preparar a Exposição Mundial de 1964, os Imagineers (a equipa de conceção dos parques) criam os barcos sobre carris e fazem avançar os Audio-Animatronics: o projeto passa a ser um cruzeiro.
Abertura na Califórnia
A primeira versão abre no Disneyland, na Califórnia, em março de 1967. É a última atração cuja conceção Walt Disney acompanhou pessoalmente.
A versão de referência
Mais tarde, uma versão remontada da atração serve de base à narrativa de Paris.
Abertura na Disneyland Paris
A Pirates of the Caribbean abre em Paris sem nenhuma personagem dos filmes, com uma narrativa invertida para ser mais cronológica.
O primeiro filme
Piratas das Caraíbas estreia no cinema. Inspira-se na atração, e não o contrário.
A grande renovação
Jack Sparrow e Hector Barbossa entram em cena como Audio-Animatronics de última geração, e a banda sonora é totalmente remisturada.
Porque é que a versão de Paris conta a história ao contrário?
É a grande opção de conceção. Nas outras Pirates (Califórnia, Flórida, Tóquio), a viagem começa pelas cavernas e pelos restos dos piratas e depois recua no tempo até à festa. Em Paris, os Imagineers inverteram a ordem das cenas para tornar a narrativa mais cronológica e linear: começas pelo ataque ao forte espanhol, segue-se o saque da cidade e acabas na maldição.
Aliás, a narrativa de Paris baseia-se na versão de 1973 da atração, remontada para se ajustar a este novo argumento.
Uma limitação técnica reforçou esta escolha. Em Paris, como não era possível escavar como noutros sítios, a atração foi construída em grande parte acima do solo. Daí uma fachada mais alta, um duplo desnível e esta rampa de subida inicial que, em vez de ser um simples elevador de barcos, se tornou o momento-chave da passagem para o passado.
O próprio edifício traduz esta mistura de influências: uma mansão colonial espanhola das Caraíbas, à imagem de todo o parque, pensado como uma ponte entre o imaginário americano e o cenário europeu.
Quantas figuras animadas há e como funcionam?
A atração de Paris tem mais de 100 personagens Audio-Animatronics, as figuras robotizadas que dão vida às cenas. O nível de animação varia conforme as necessidades: de um simples gesto repetido até à imitação da interpretação de um ator, como os duelistas que cruzam espadas no bairro residencial.
Fabricar uma destas figuras demora vários meses. O trabalho parte de maquetas, depois de um esqueleto de metal e fibra de vidro percorrido por fios e tubos, coberto por uma pele de silicone e vestido.
Os movimentos são comandados pelo som e combinam cilindros pneumáticos e hidráulicos. O ajuste eletrónico em tempo real da pressão hidráulica tornou os gestos mais naturais e mais precisos. Já a programação continua a ser longa e delicada.
Quem são os Imagineers por trás da atração?
Por trás dos barcos, há uma equipa de artistas cujos nomes aparecem em toda a história dos parques Disney.
| Imagineer | Papel na atração |
|---|---|
| Marc Davis | Conceção das piadas, das cenas e das personagens, incluindo o tom cómico |
| Yale Gracey | Efeitos especiais e ilusões, sobretudo a ilusão das chamas do incêndio |
| Blaine Gibson | Escultura dos rostos das figuras Audio-Animatronics |
| X Atencio | Argumento, diálogos e letra da canção Yo Ho (A Pirate’s Life For Me) |
| Tony Baxter | Conceção da versão da Disneyland Paris e da sua narrativa ao contrário |
Os Imagineers por trás de Pirates of the Caribbean
Pirates of the Caribbean transporta-te literalmente para outro mundo. Quando sobes para o barco, está tudo calmo, quase adormecido. Depois, dás por ti noutra época. É por isso que Pirates of the Caribbean é o melhor exemplo de realidade virtual: ali, tudo é virtualmente real.
De onde vem a canção "Yo Ho (A Pirate’s Life For Me)"?
O tema musical da atração, "Yo Ho (A Pirate’s Life For Me)", data dos anos 1960. É cantado por três piratas músicos instalados à beira do canal. Walt Disney queria uma canção de marinheiro tradicional e pediu ao Imagineer responsável pela conceção que a escrevesse ele próprio, com a ajuda de George Bruns, diretor musical da casa na Disney (101 Dálmatas, O Livro da Selva).
Escrever para uma atração impõe uma limitação rara: a canção não pode ter princípio nem fim, e cada estrofe tem de se aguentar sozinha, porque é impossível saber em que momento cada visitante a ouve. A banda sonora de Paris baseia-se na de 1973, com diálogos gravados de propósito que incluem o francês e o espanhol. Foi totalmente remisturada em 2017, com alguns temas dos filmes escondidos nas melodias originais.
O que mudou com a renovação de 2017?
Depois de vários meses de obras, a atração reabriu em julho de 2017 com novidades pensadas para ligar a narrativa original à saga do cinema, sem a desvirtuar. Entram em cena duas personagens Audio-Animatronics de última geração: Jack Sparrow e Hector Barbossa. Para as animar, as equipas estudaram os gestos e as expressões dos atores dos filmes para os reproduzir fielmente.
A cena final do leilão foi refeita: Jack Sparrow aproveita a confusão para ficar com o cobiçado mapa do tesouro, esconde-se num barril e depois festeja com uma garrafa de rum.
A explosão de um arsenal atira agora os visitantes para a gruta do tesouro, onde se descobre Jack sentado na sua montanha de moedas. Por fim, a banda sonora foi totalmente remisturada com um novo sistema de som.
Qual é a história do restaurante Captain Jack’s?
No início do percurso, os barcos passam junto às mesas de um restaurante sobre a água, o Blue Lagoon Restaurant. O edifício da atração tem também o Captain Jack’s, Restaurant des Pirates, que serve cozinha das Caraíbas e tem a sua própria história.
O corredor que leva até lá mostra um grande mapa das Caraíbas e vinhetas emolduradas assinadas por Marc Davis, com a homenagem escondida no fundo do mapa. Segundo a história, Jack Sparrow teria ganho o restaurante numa aposta contra Angelica Teach, a filha do Barba Negra. A prova está escondida no cenário: numa tabuleta, o nome "Angelica Teach" está riscado e substituído por "Captain Jack Sparrow".
Para saberes se está aberto e como lá comer, é informação prática: remeto-te para a ficha do restaurante Captain Jack’s, em vez de a repetir aqui.
Que segredos e pormenores escondidos podes procurar?
- Captain Jack Sparrow refastelado no seu trono de tesouro, no fundo da gruta: confunde-se com o saque, tens de o procurar com o olhar.
- O mapa das Caraíbas do Captain Jack’s: Marc Davis aparece com a sua famosa boquilha, no fundo do mapa.
- A tabuleta do restaurante onde o nome de Angelica Teach está riscado e substituído pelo de Jack Sparrow.
- Uma galinha perdida no meio das cenas de saque e o cão que segura na boca as chaves das celas.
- O próprio sentido da narrativa: lembra-te de que vais do passado para o presente, é isso que torna a passagem final tão forte.
Para os Hidden Mickeys e outras piscadelas de olho espalhadas por todo o parque, remeto-te para os segredos da Disneyland Paris. Se gostas desta maneira de contar uma atração como uma história, o parque está cheio delas: continua com a saga de Thunder Mesa, de que faz parte a Big Thunder Mountain, com a Phantom Manor, com a história da Space Mountain, ou alarga o olhar com os parques Disney no mundo. E para toda a parte prática de Pirates of the Caribbean, a ficha Pirates of the Caribbean continua a ser a tua referência.
Perguntas frequentes
01 Em que ano abriu a Pirates of the Caribbean na Disneyland Paris?
A atração abriu em 1992, no dia da inauguração do parque, em Adventureland. Faz parte das primeiríssimas atrações da Disneyland Paris e estava presente desde o primeiro dia, muito antes da estreia dos filmes.
02 Porque é que a Pirates of the Caribbean de Paris conta a sua história ao contrário?
Os Imagineers inverteram a ordem das cenas em relação aos outros parques para tornar a narrativa mais cronológica: parte-se do ataque ao forte espanhol, depois vem o saque e acaba-se na maldição. As duas quedas de água servem de pontos de viragem. É isso que faz da versão de Paris a mais narrativa das Pirates da Disney.
03 A atração Pirates of the Caribbean é baseada nos filmes?
Não, é o contrário. A primeira versão abre em 1967, enquanto o primeiro filme estreia em 2003 e se inspira na atração. Em Paris, onde abriu em 1992, as personagens da saga como Jack Sparrow e Barbossa só foram acrescentadas em 2017.
04 O que mudou na Pirates of the Caribbean com a renovação de 2017?
A atração reabriu em julho de 2017 com duas figuras Audio-Animatronics de última geração, Jack Sparrow e Hector Barbossa, uma cena final do leilão refeita (Jack fica com o mapa do tesouro), uma explosão de um arsenal que atira os barcos para a gruta e uma banda sonora totalmente remisturada, com temas dos filmes.
05 Quantas figuras animadas tem a Pirates of the Caribbean?
A atração de Paris tem mais de 100 personagens Audio-Animatronics. A animação vai de um simples gesto repetido à imitação da interpretação de um ator, como os duelistas de espada. Já o tesouro da gruta tem quase 50 000 moedas coladas à mão.